Abscindir
Você foi a coisa mais certa que deu errado na minha vida.

Aí você deu uma de idiota e ela fugiu, paciência, ninguém acerta tudo. Mas se você não for atrás, vai dar uma de idiota pela segunda vez. — Gabito Nunes.

Por qualquer razão, é melhor assim, distante de nós e de tudo isso. Uma escolha nem sempre é nossa, essa pode não ter sido, mesmo que pareça ser. E estar feliz é mesmo tão diferente de ser feliz? Porque a escolha agora tem me feito feliz. Isso, tudo isso, todas as coisas sem nome. Por qualquer razão (que é melhor não descobrir), está melhor assim. — Camila Costa. 

I find beauty in all things authentic, pure, and eternal. And so I value honesty, I value holiness, and I value the soul. — Lauren Britt

De repente, sobre nós se abateu uma paixão louca, desajeitada, impudica e agoniante; e também desesperada, caberia acrescentar, porque só teríamos podido saciar aquele furor de posse mútua se cada um de nós assimilasse a última partícula da alma e do corpo do outro - mas lá estávamos, incapazes até mesmo de manter uma relação carnal, quando crianças que vivessem em cortiços teriam tido tantas oportunidades de fazê-lo. Após uma desvairada tentativa de nos encontrarmos à noite em seu jardim, a única privacidade que nos permitiam era a de estar longe dos ouvidos, mas não dos olhos, de todos os que frequentavam aquela movimentada parte da praia. Ali, na areia macia, a poucos metros dos mais velhos, ficávamos estendidos durante toda a manhã num petrificado paroxismo de desejo, aproveitando cada abençoada dobra do tempo e do espaço para nos tocarmos: sua mão, semi-oculta na areia, movia-se lentamente em minha direção, os dedos finos e queimados de sol chegando como sonâmbulos cada vez mais perto; depois era seu opalescente joelho que iniciava uma longa e cautelosa viagem; às vezes, uma trincheira ocasionalmente aberta pelas crianças oferecia proteção suficiente para que nossos lábios salgados se roçassem; mas esses contatos fugazes levaram nossos corpos jovens, saudáveis e inexperientes a um estado de tamanha exacerbação que nem mesmo a água fria e azul, sob a qual ainda nos agarrávamos, era capaz de aliviar. — Vladimir Nabokov, “Lolita” 

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Já não podem curar as minhas marcas de solidão que o tempo fez. Ferro e fogo se fundem para me lembrar de hoje, de ontem e de sempre, desde sempre carregando na mala as impressões de quem esteve tempo demais com o silêncio para poder decorar os ruídos dos ventos, os cantos dos pássaros ou os barulhos das tempestades. Você não pode me curar, ninguém mais pode. Eu não sei se gostaria dessa cura, de um tal milagre que apagasse de mim qualquer coisa fora de ordem. A desordem está sempre dentro muito mais do que fora. Será que dá para entender? Eu não quero me apagar. Trago nas lições dos dias que a gente não tem que questionar a própria dor. Minhas insônias, meus medos, meus choros baixos e engolidos, meus traumas que não se resumem a um brinquedo que não ganhei de Natal ou uma boneca que alguém quebrou. A minha vida escondida que não daria um livro animado. Eu sou como todo mundo que se desencontra tantas vezes pensando que há de se encontrar. Mas aprendi finalmente que encontros são sempre filmes que passam em outra televisão que não a minha. E na minha tela meio quebrada alguma cena nova e distorcida me chamou e eu fui. Você não pode me curar, e isso não é motivo para mais dor. Eu também não posso curar as marcas que você esconde e vejo mesmo assim. Ninguém cura ninguém. Você me fez trocar o canal, passar da solidão para a companhia. Passar do sofá vazio para a o quarto cheio do coração. Recolocar o quadro de fotos com o seu sorriso exposto. Trazer para perto a minha vida que já ia lá longe. Eu me fiz tão e somente comigo que talvez você não entenda porque eu e a vida temos lá os nossos estranhos jogos de desconfiança. É que os teus olhos me trazem umas certezas que eu nunca havia visto antes. E os outros, quem são os outros nessas horas em que a solidão fica pequena, mas nenhum deles é quem me acompanha? Eles me veem com as palavras, mas somente você aprendeu a me ver com o silêncio, que eu sou muito mais o que não falo do que as poesias que espalho pelos cantos. Você não pode me curar, mas já me curou. — Camila Costa.